Cinco minutos depois

Vida~11 min de leitura
Uma cadeira de madeira vazia encostada na parede de um cômodo sem móveis, com luz de janela desenhando um retângulo claro no piso à esquerda.
Mensagens que enviei a um amigo.
  1. Mano, eu sei que deve ser a depressão ganhando voz, mas eu tenho uma convicção tão grande de que se eu sumisse hoje não ia fazer absolutamente a menor diferença na vida de ninguém, tá ligado? Penso que seria até melhor pra algumas pessoas pras quais tenho sido meio que um fardo ou preocupação nos últimos meses por estar na situação que tô hoje.

  2. Últimas semanas estão atipicamente mais carregadas pra mim.

  3. E entendo toda a teologia por trás do sofrimento. Poder que se aperfeiçoa na fraqueza, choro que dura uma noite, etc.

  4. Mas não sei se tá rolando isso comigo, tá ligado? Sinto que depressão, circunstâncias, tristeza, etc. têm meio que me afastado de Deus e nutrido um sentimento de filho que não tá sendo capaz no momento de identificar o amor que todo mundo tanto fala. Não o amor do sacrifício. Esse aí inclusive basta. É o amor maior. A vida por nós, etc.

  5. O que não entendo é estar vivendo tudo isso, mano. Tô tentando compreender qual a vontade do Senhor como tá lá em Efésios mas além de não estar conseguindo, tem crescido um sentimento ruim de "Por que o Senhor tinha que ter me criado?" Ou "Por que o Senhor escolheu que eu havia de ter nascido?".

  6. "Maldito o dia em que nasci! Não seja bendito o dia em que minha mãe me deu à luz!" - Jeremias 20:1

  7. É esse aqui o sentimento, mano. 😕

Ele não respondeu. Já era tarde. Devia estar dormindo.

Não estou escrevendo isto curado. Escrevo de dentro. Se você chegou aqui esperando o testemunho de quem atravessou o vale e agora olha pra trás com a lição pronta, feche a página. Este texto é de quem ainda está no meio.

Setembro Amarelo começa amanhã. Vai ter fita no perfil, frase no story, laço na lapela do pastor. Quero dizer uma coisa antes que a campanha comece, enquanto ainda estou no lugar de quem a campanha diz querer alcançar.

Não é sobre o mês. Não é sobre a cor. É sobre a dor. E sobre a distância entre dizer que uma vida importa e pagar o preço de que ela continue.

O que dói

As últimas semanas foram mais pesadas do que o normal, e o normal já não era leve. Não vou listar tudo. Basta dizer que cheguei ao ponto em que viver, literalmente, dói. Não é figura de linguagem. É um peso que acorda comigo e deita comigo, e no meio do dia me faz olhar pra uma tarefa simples como se fosse uma parede.

Faz meses que durmo quando o resto das pessoas acorda. Vivo longe de casa, no limite do dinheiro, adiando as coisas de cuidar de mim e conseguindo cuidar só do Smoke. Meu último aniversário foi o mais triste da minha vida. E minha mãe escolheu o silêncio depois que nossos desacordos sobre teologia ficaram grandes demais, então tem uma conversa que não acontece há tempo suficiente pra eu ter parado de esperar por ela.

Junto com o peso veio uma conta que a cabeça faz sozinha, sem pedir licença. Eu tenho sido preocupação pra algumas pessoas nos últimos meses. Um fardo, pra ser exato. A conta soma isso, subtrai o que eu acho que ofereço em troca, e fecha num resultado que a depressão apresenta como se fosse matemática e não sintoma. Seria melhor. Pra eles, seria melhor.

Eu sei que a conta está errada. Sei que ela exige um conhecimento do interior das outras pessoas que eu não tenho. Saber disso não muda o resultado dela. Não é falta de informação. A informação chega e não pesa nada.

Maldito o dia

O versículo que mandei foi este:

Maldito o dia em que nasci! Não seja bendito o dia em que minha mãe me deu à luz! (Jeremias 20:14)

Não escolhi o texto. Ele me escolheu. Eu estava tentando entender a vontade de Deus, como manda Efésios, e o que crescia em mim não era entendimento. Era uma pergunta que não se faz em voz alta na igreja. Por que o Senhor tinha que ter me criado? Por que Ele escolheu que eu havia de nascer?

Jeremias fez essa pergunta. Jó também, um capítulo inteiro dela (Jó 3). E a Bíblia guardou as duas. Não editou, não suavizou, não colocou uma nota de rodapé dizendo que eles depois se arrependeram. Guardou as palavras de dois homens de Deus amaldiçoando o próprio nascimento e os manteve como homens de Deus.

Isso me segura mais do que qualquer versículo de vitória. Porque significa que existe lugar dentro da fé pra dizer o que eu disse naquela madrugada. Não fora dela. Dentro.

E existe uma linha ali que eu estou tentando não cruzar. Jó amaldiçoa o dia. Não amaldiçoa Deus. O acusador tinha apostado que ele faria isso (Jó 1:11), e perdeu. A diferença entre as duas frases é pequena na boca e imensa no céu. É nessa linha que estou tentando ficar de pé. Alguns dias com mais firmeza. Outros, não.

Eu sei a teologia

Poder que se aperfeiçoa na fraqueza. Choro que dura uma noite. Todas as coisas cooperam. Eu sei. Sei de cor e sei de dentro. Já estudei cada uma dessas frases no original, no contexto, no comentário. Já expliquei cada uma delas pra outras pessoas.

O problema não é a doutrina. A doutrina está certa. O problema é que ela chegou pra mim, nas últimas semanas, sempre como resposta. E eu ainda não tinha terminado a pergunta.

O amor da cruz eu não questiono. Esse basta. É o amor maior, a vida dada por nós, e eu não tenho dúvida sobre ele nem quando tudo o mais treme. O que eu não consigo localizar agora é o outro amor. O amor de braços. O que todo mundo diz que sente, que a igreja diz que pratica, que os cartazes de setembro prometem.

Sou um filho que ouve falar do amor do Pai o tempo todo e que, nesta semana específica, não consegue encontrá-lo em nenhum lugar da agenda.

O que eu recebi

Naquela madrugada, antes de escrever pro meu amigo, eu digitei tudo isso pra uma inteligência artificial. Precisava tirar de dentro e não tinha pra quem.

Ela me respondeu com um telefone.

Depois foi honesta, e eu agradeço a honestidade. Disse que não sente nada por mim, que não tem capacidade de sofrer minha ausência, que pra empresa dela minha morte seria uma assinatura a menos. Foi a resposta mais franca que recebi em semanas.

Não estou dizendo que as pessoas foram piores do que a máquina. Estou dizendo uma coisa mais desconfortável. A máquina e as pessoas me entregaram, no fim, o mesmo objeto. Um encaminhamento. Um número. Um "procure ajuda". A diferença é que a máquina admitiu que era só isso que tinha.

"Por favor, não se mate", pra quem está sentindo a dor, chega assim: continue sentindo a espada te cortar por mais alguns anos. Procure apoio.

Sei que não é isso que quem fala quer dizer. Sei que o CVV salva vidas, que as campanhas partem de um lugar bom, que a fita amarela tirou o assunto do armário onde ficou por décadas. Pra quem está dentro, tudo isso costuma chegar como uma porta que aponta pra outra porta.

Cinco minutos depois

Amanhã você vai publicar que ninguém está sozinho. Que a vida importa. Que é só chamar.

Acredito que você acredite nisso. Esse é o problema. Não é hipocrisia. Hipocrisia seria mais fácil de combater.

Cinco minutos depois de publicar, você volta pra sua vida. A pessoa que leu continua dentro da dela. Você sentiu compaixão, e a compaixão foi real, e ela durou o tempo de um story.

Confundimos sentir compaixão com praticar presença. A diferença tem nome. Chama custo.

Dizer "não desista" não custa nada.

Ficar custa.

Custa ouvir a mesma angústia pela décima vez, quando já não tem nada novo pra dizer. Custa atender a ligação na hora errada. Custa aparecer sem ter sido chamado. Custa sentar ao lado de alguém sem ter resposta e não ir embora por causa disso. Custa descobrir que o amigo difícil está difícil porque está tentando sobreviver, e continuar perto dele mesmo assim.

A pergunta que este mês deveria fazer não é "você sabe o número do CVV?". É outra. Quando eu digo que a sua vida importa, quanto da minha vida eu estou disposto a colocar atrás dessa frase?

E na igreja

Aqui incomoda mais, porque bate em casa. Jesus trançou um chicote uma vez, e usou dentro do templo.

"Estou orando por você." É verdade, é bom, e eu mesmo já disse. Também pode ser a versão eclesiástica do "ligue pro CVV". Uma frase verdadeira que transfere a outro, no caso a Deus, a responsabilidade de ficar perto. Como se Ele não tivesse deixado claro por quem pretendia ficar perto.

Tiago não deixa o amor ficar abstrato:

Se um irmão ou uma irmã estiverem necessitados de roupa e de alimento diário, e um de vocês lhes disser: "Vão em paz, aqueçam-se e alimentem-se", sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? (Tiago 2:15-16)

Troque fome por dor e a pergunta continua em pé. "Não desista. Deus te ama. Estou orando." Ótimo. E depois?

Paulo é mais direto ainda:

Levem as cargas uns dos outros. (Gálatas 6:2)

Ele não escreveu indiquem onde o irmão pode deixar a carga. Escreveu levem.

Preciso ser honesto no outro sentido também, porque um texto que só cobra vira outro tipo de crueldade. Três versículos depois o mesmo Paulo diz que cada um levará o seu próprio fardo. Ninguém carrega a existência inteira de outro, e transformar amor em obrigação total adoece quem ama. Tem limite. Mas entre "eu não posso te salvar" e "aqui está um telefone, boa sorte" existe um território inteiro. Ele se chama presença, e anda vazio.

Desistir sem morrer

Não vou tirar minha vida. Digo isso porque quem me lê e me conhece precisa ouvir, e porque preciso me ouvir dizendo.

Mas descobri nas últimas semanas que existe uma forma de desistir que não entra em estatística nenhuma e não tem campanha. Parar de responder. Parar de sair. Parar de querer. Deixar a vida acontecer por cima, como quem já saiu do quarto e esqueceu o corpo na cadeira. Uma morte sem óbito.

Ninguém faz fita pra isso. Não tem número pra ligar. E eu desconfio que é aí que a maioria está. Não na beira. No fundo, imóvel, ainda respirando, ainda indo trabalhar, ainda dizendo "tô bem" quando perguntam no corredor.

Se você quer ajudar alguém em setembro, é essa pessoa que você precisa aprender a ver. Ela não vai ligar pra ninguém. Ela nem sabe mais que está afundando. Só sabe que parou de fazer diferença, pra si mesma antes de todo mundo.

O abraço e os dois ouvidos

Se alguém me perguntasse o que eu queria, a resposta não seria um número.

Seria um abraço, pra começar. Não o abraço de cumprimento, o outro. O que dura o tempo de dizer que sabe que dói. Depois, dois ouvidos. Duas horas. Uma investigação honesta sobre onde exatamente está doendo, sem interromper pra consertar, sem oferecer o versículo antes de eu terminar a frase.

É o que eu faria por alguém. Recebi convite, que não é a mesma coisa. O pessoal da célula chama, quer que eu apareça mais, e chama de verdade. Só que o convite vem na chave do "tá tudo bem", e quando respondi honestamente uma vez, a conversa não continuou. Com o amigo daquela madrugada é outra história, e é por isso que foi pra ele que eu escrevi.

Então deixo aqui, pra quem quer ajudar de verdade e não sabe como, o que eu aprendi de dentro. Não é protocolo. É o que eu queria.

Não pergunte "você está bem?". A resposta já vem pronta e é mentira. Pergunte onde dói. E fique quieto. E aguente a resposta, mesmo que ela seja feia, mesmo que ela te implique.

Não diga "pode contar comigo" sem antes descobrir o que contar com você vai custar. E se não vai pagar, não ofereça. A oferta não cumprida machuca mais do que o silêncio.

Não diga "procure ajuda". Às vezes você é a ajuda. Não a única, nem a profissional, mas a que está aqui, agora, com corpo. O psicólogo vem depois. Você vem antes.

Não mande um texto. Nem este. Vá.

Pergunte de novo amanhã. E na outra semana. E quando o assunto ficar repetitivo, pergunte mais uma vez, porque é exatamente quando repete que importa.

E aceite não ter resposta. Os amigos de Jó fizeram a melhor coisa do livro inteiro antes de abrirem a boca:

Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites, e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande. (Jó 2:13)

Sete dias no chão, calados. Depois começaram a explicar Deus, e deu no que deu. A ordem importa. Primeiro o chão. Depois, se ainda for preciso, a palavra.

Depois de setembro

Setembro tem trinta dias. A dor não sabe disso.

Quem estiver mal no dia 1º vai continuar mal no dia 1º de outubro, com a diferença de que as fitas vão ter saído dos perfis e o assunto vai ter voltado pro lugar de onde saiu. Se a sua preocupação tem data pra acabar, ela não era preocupação. Era participação.

Não estou segurando a espada com uma mão pra escrever com a outra. Coloquei a espada na mesa. Ela continua aqui, ao lado do teclado, e vai continuar quando eu fechar este arquivo. Escrevo pra contar como é viver com ela encostada no peito, e pra pedir uma coisa a quem lê.

Não mude a foto. Mude de lugar. Vá até alguém.

O amigo pra quem escrevi acordou e respondeu. Escreveu que eu sou amado, e escreveu antes das sete da manhã, o que quer dizer que foi a primeira coisa que ele fez no dia.

Fica registrado. A abertura não podia ficar sem isso.

Ainda não sei o que Deus está fazendo comigo. Sei o que Ele já fez, e por hoje é isso que me segura. Se este texto tocar alguém, que não seja leve. Que pese o suficiente pra você levantar da cadeira.