Um número limitado de placas

Cinema~27 min de leitura

Sobre Coyote vs. ACME, de Dave Green

escrito para quem já viu
Coiote sentado a uma mesa de escritório, visto por cima do ombro de um homem de terno claro, segurando aberto um livro azul cuja capa diz "How to Wait Around Dramatically
Coyote vs. ACME (2026) © Warner Bros. Pictures / Ketchup Entertainment

Sinto muito também. / Tenho muitas coisas pra te dizer, / Mas... / O número de placas é limitado. Wile E. Coyote, em quatro placas, diante do Congresso. Coyote vs. ACME (2026)

Coloquei uma comédia para parar de pensar.

Vinte minutos depois eu estava com o filme pausado num coiote sentado numa sala de reuniões de escritório de advocacia. Ele tinha acabado de enganar o próprio advogado e sabia que a bronca vinha. Então pegou um manual: Como esperar dramaticamente. Eu ri como não ria há semanas, daquele riso que dobra o corpo, e voltei o trecho duas vezes.

Na hora achei só engraçado. O problema é que estou em São Paulo esperando dramaticamente há meses.

Não estou parado. Isso é o que a palavra "espera" esconde. Tenho procurado trabalho, escrito, construído uma empresa que pode não dar certo, aparecido onde me chamam, estudado, feito a próxima coisa e a seguinte. Não falta movimento. Falta resposta. Nenhuma das tentativas voltou ainda com um sim ou um não, e é impossível saber, de dentro, se você está sendo perseverante ou se está só demorando para admitir alguma coisa.

Foi nesse estado que apareceu um coiote com um manual de espera. A piada não pediu São Paulo. São Paulo é que coube na piada, e não saiu mais.

Coyote vs. ACME parte de uma ideia que Ian Frazier publicou na New Yorker em 1990, escrita como petição judicial: e se Wile E. Coyote processasse a empresa que fabricou cada foguete, bigorna e catapulta que já explodiu na cara dele? Dave Green pega isso e faz um filme de tribunal de verdade, com advogado de outdoor, acordo recusado, testemunha que foge de intimação e uma audiência no Congresso. Só que dentro dele os Looney Tunes acontecem inteiros.

Tudo começa na caverna. Mais um plano falhou, o Coyote está com as mãos e a cabeça baixas sobre a mesa, guardando os dentes que acabou de perder na explosão num pote onde já não cabe quase mais nenhum, pensando em desistir de tudo. E a televisão, do nada: "Você já colocou um monte de TNT na estrada esperando explodir seu inimigo, mas, ao acionar o detonador, o detonador explodiu? Você já puxou a cordinha do seu paraquedas e viu um monte de utensílios saírem dele? A culpa não é sua. Com certeza, alguém é responsável. Nós seremos a sua voz. Avery. Jones. Maltese. Justiça. Terças em dobro." E ele tem uma catarse diante de uma das linhas mais ridiculamente, estupidamente e genialmente expositivas que já vi num filme. Quando ele liga, quem atende é uma gravação. "Se foi atingido por uma bigorna, digite 1. Se foi eletrocutado, digite 2. Se foi esmagado por um piano, digite 3." O mundo humano não recebe o desenho como visita. Já tinha desenvolvido burocracia para processar as consequências dele.

Coiote parado diante de uma pilha enorme de produtos ACME quebrados num estacionamento, com um grampeador vermelho numa das mãos e uma folha de papel na outra, e um homem de terno claro de costas em primeiro plano

Vale dizer logo o que o filme é para mim. Ele é sobre o valor de continuar existindo, tentando e sendo digno de consideração quando você não consegue converter esforço em resultado. "É sobre perseverança" seria verdadeiro e insuficiente, porque o próprio Coyote é a prova de que persistência pode ser absurda, obsessiva e moralmente duvidosa. O objetivo ao qual ele dedica a existência é capturar um pássaro que dedica a existência a fugir dele. A pergunta do filme é outra, e mais desconfortável: o que resta do valor de alguém quando retiramos vitória, produtividade, utilidade e até a promessa de que amanhã será diferente?

Ri tanto por um motivo que é a mesma coisa que me fez chorar depois.

Não consegui comer assistindo. Desviava os olhos para o garfo e perdia alguma coisa. O filme trabalha em várias pistas ao mesmo tempo, a piada da cena e outra no diálogo de fundo e outra num objeto do cenário e outra na reação de alguém, e às vezes uma última que só existe para quem sabe como um Looney Tune pensa. Tem um plano de dois segundos que é só uma lixeira. Vi a lixeira, desviei, a cena mudou, e alguns segundos depois meu cérebro perguntou por que diabos alguém filmaria uma lixeira. Voltei. Lá dentro estavam os olhos do Coyote. A gag existiu, ninguém sublinhou, e foi embora. Se peguei, peguei.

Isso é confiança no espectador, e é a mesma confiança dos curtas antigos. Em Duck Dodgers in the 24½th Century (1953), de Chuck Jones, o Patolino atira uma bala que freia no ar, abre uma tampinha, desenrola um ultimato escrito e cai no chão inofensiva. Marvin responde com outra bala. Ela também freia, também abre, e no lugar da mensagem sai um tiro. A bala contém o tiro que deveria ser ela própria. Ninguém explica. O universo estabelece uma regra absurda, aceita a regra, viola a própria ontologia da regra e segue em frente. Coyote vs. ACME fala essa língua com fluência, e é por isso que o mundo humano do filme não parece um cenário onde colaram um desenho. John Cena, como Buddy Crane, o advogado da ACME, não é um homem contracenando com um Looney Tune. Ele é um Looney Tune que por algum erro administrativo recebeu carne.

Há quem tenha visto o oposto. A Variety achou que o filme fica referenciando a anarquia dos curtas (abre em nova aba) em vez de mergulhar nela, e que ao lado deles parece apresentável e domesticado. Não vou brigar com isso. Seis minutos de Chuck Jones dedicados a um único mecanismo de violência têm uma ferocidade que um longa com arco humano, conspiração corporativa e audiência no Congresso não tem como sustentar. Minha defesa nunca foi que o filme é tão feroz quanto os curtas. É que ele entende como eles pensam. Um filme pode ter menos ferocidade que a fonte e mais inteligência sobre ela.

E a inteligência aqui é de um tipo específico, que Green descreveu melhor do que eu conseguiria: o material permitia que "inteligente e estúpido coexistissem no exato mesmo momento". Não em alternância, uma piada idiota e depois uma reflexão séria e depois emoção e depois volta o cartoon. A mesma coisa fazendo os quatro trabalhos ao mesmo tempo.

O advogado do Coyote se chama Kevin Avery, e ele evita tentar. Faz acordo em todos os casos, porque perdeu alguns no começo da carreira e descobriu que quem não se compromete com nada nunca precisa descobrir que não consegue. Estudou em Harvard com o homem que agora defende a ACME, e a comparação o esmaga. Então entra no escritório dele o personagem mais associado ao fracasso repetido na história do entretenimento, e recusa o acordo. "Eu tentei fechar acordo, mas ele não deixou. Ele é um coiote. A gente nem é advogado de júri." O escritório inteiro existe para encerrar conflitos rápido, e aparece como cliente uma criatura cuja característica definidora é não desistir.

A ironia estrutural é quase perfeita, e o filme sabe. Kevin aprende com o Coyote a tentar. Não a vencer: a tentar. E o filme tem coragem de não recompensar isso na hora. Kevin tenta, e Kevin perde. Se ele descobrisse coragem e então ganhasse o grande caso, a tese viraria "vale a pena tentar porque no fim você consegue", e não é isso que o Coyote ensina a ninguém. O que ele ensina é mais estreito e mais duro: o fracasso não tem autoridade automática para decretar o fim da tentativa.

Só que o Coyote também não é o modelo que Kevin pinta dele. No meio do filme descobrimos que ele usou o processo inteiro como parte de um plano para trazer o Papa-Léguas até a sala do tribunal. O que parecia amadurecimento, largar as armadilhas e responsabilizar a empresa civilizadamente, era a maior armadilha que ele já construiu. Ele não trocou catapulta por maturidade. Transformou litigância estratégica em catapulta. Respeito muito essa decisão de roteiro, porque ela recusa o caminho fácil de humanizar o personagem fazendo-o deixar de ser quem é.

Homem de terno azul sentado sozinho a uma mesa de vidro num escritório envidraçado, com montanhas ao fundo, uma bicicleta ergométrica à esquerda e potes de bala sobre a mesa

E é o vilão quem formula a objeção que o filme precisava ouvir. Buddy Crane tenta comprar Kevin com dinheiro e com uma frase: "Vai continuar fazendo a mesma coisa repetidamente? Tentativa, erro, tentativa, erro, esperando um resultado diferente?" A frase descreve o Coyote. E é exatamente o que Kevin passou a carreira inteira evitando virar. É a definição pop de insanidade. E é parcialmente verdadeira. O Coyote compra repetidamente de uma empresa que o mutila, persegue um objetivo que nunca alcança e põe em risco a vida do pássaro que diz querer. A mesma repetição pode ser descrita como persistência extraordinária ou como incapacidade patológica de interromper um ciclo. Por dentro, as duas coisas parecem idênticas. "Vou tentar mais uma vez" pode ser coragem ou autoengano. "Acho que chegou a hora de parar" pode ser sabedoria ou medo.

O filme não resolve isso. Ainda bem. Uma moral de "nunca desista" seria péssima para Wile E. Coyote.

Coiote inclinado sobre um microfone numa audiência, com o advogado de barba ao lado e o público de terno desfocado ao fundo

O que ele resolve é outra coisa, e passa pela ACME.

A empresa tem um programa secreto chamado Projeto Sísifo. Durante anos ela coletou os resultados do uso dos seus produtos por cartoons e usou esse sofrimento como pesquisa e desenvolvimento para produtos humanos. Frangolino, o CEO, não nega. Defende. Desenhos são resilientes, podem bater forte, jogar de um penhasco, a gente aguenta. Falando como um deles, ele acha que pode até ser meio engraçado. E o que é um pouco de sofrimento para o bem maior? Sofrimento faz parte da vida, e é importante. Então aponta para o sapato de Kevin. A sola de borracha ali é isenta de impostos, e foi desenvolvida jogando-a um milhão de vezes no rosto de um desenho. As pílulas tornado viraram motores de jato. O tônico de alta velocidade levou o homem à Lua. "Mas todos aqui querem viver num mundo sem novidades? Sem progresso?"

Isso é mais inquietante do que uma corporação malvada fazendo coisas ruins. A ACME não se concebe como malvada. Concebe-se como progresso. O sofrimento vira custo operacional, e a resiliência da vítima, que é a única coisa admirável que restou nela, vira a justificativa para continuar ferindo-a. "Ele sempre se levanta" passa a significar "portanto podemos continuar derrubando". O nome do projeto é brutalmente exato. Sísifo empurra a pedra, a pedra cai, ele recomeça. O Coyote compra ACME, constrói, falha, explode, levanta, compra ACME de novo. A corporação descobriu que existe valor econômico extraível do ciclo. Ela não precisa que ele vença. O modelo funciona melhor enquanto ele continua tentando.

Uma crítica da Sight and Sound me deu a peça que faltava. Catherine Wheatley nota que a ACME classifica o Coyote (abre em nova aba) como um "usuário de alto consumo", preso a comprar produtos que sempre falham nele. Ou seja, ele paga para entrar de novo no ciclo que o machuca. Isso não o torna vítima passiva de uma empresa que o escolheu por acaso. Ele tem desejo, tem obsessão, tem agência. A ACME não inventou o desejo do Coyote. Descobriu como lucrar com ele. Por isso a defesa da empresa, de que ele usa os produtos de forma irresponsável, não é mentira. Ele é irresponsável. O ponto moral do filme não depende da inocência dele. Ser imprudente não torna legítimo transformar sua imprudência em laboratório clandestino.

E aqui eu fiquei desconfortavelmente perto da ACME. Eu ri do Coyote sendo esmagado a vida inteira. Quando Frangolino diz que cartoons aguentam e que pode até ser engraçado, ele está certo, e eu sei porque sempre ri. Ele bate um martelo na própria cabeça para provar. O tribunal ri. As testemunhas sorriem. O senador sorri. Eu não ri. A sala estava fazendo o que eu sempre fiz. A mesma propriedade que torna o sofrimento aceitável para ele, "ele vai ficar bem", é a que sempre tornou aquela violência cômica para nós. A diferença é que o espectador usufrui da gag. A ACME transforma a gag em sistema. O filme nunca retira a violência da comédia. Eu continuo rindo quando alguma coisa explode na cara dele. O filme sustenta as duas verdades ao mesmo tempo, é engraçado quando o Coyote cai do penhasco e a dor do Coyote importa, e boa parte da grandeza dele está em recusar escolher.

Só que Frangolino leva o argumento a um lugar mais pessoal, e é aí que a cena me pegou.

Frangolino se vira para o Crane e pergunta qual é mesmo aquela frase que ele sempre diz. "Não é possível fazer omelete sem quebrar alguns ovos." Frangolino concorda. Se o ovo for só "um cão do deserto, que mora numa caverna, sem conexões, sem família, sem amigos", então paciência. Sem dor, sem ganho. O Coyote não é descartável porque é resiliente. É descartável porque está sozinho. O cálculo moral da instituição tem uma variável escondida: quem vai reclamar? E Frangolino a torna explícita, virando-se para a sala e perguntando se existe alguém no mundo inteiro que se importe com o que acontece com o Coyote.

Silêncio.

Papa-Léguas atrás de um púlpito numa audiência do Congresso, com papéis espalhados pelo chão, duas bandeiras ao fundo e o público sentado dos dois lados

Entra o Papa-Léguas. Entra correndo, arrastando os papéis, deixando o rastro de poeira de sempre. Para na frente do microfone, de frente para a câmera. Eu já estava chorando antes disso, mas aqui desabei.

Não é só que a cena é bonita. Na mitologia desses personagens, o Papa-Léguas é a obsessão do Coyote, o adversário do Coyote e a vítima potencial do Coyote, tudo ao mesmo tempo. Entre todas as criaturas possíveis, é aquela que ele passou a vida tentando pegar que aparece para testemunhar em seu favor. E o roteiro torna isso ainda mais desconfortável. Enquanto o Papa-Léguas testemunha, o Coyote está escondido na sala montando, freneticamente, a armadilha que passou o filme inteiro construindo para pegá-lo. Objeto empurrando objeto, que aciona outro, que lança outro. Looney Tunes puro. O filme mantém a gag intacta e, mais importante, mantém intacta a natureza dele. Ninguém virou outra criatura por ter passado por uma experiência jurídica transformadora.

A cena estreita duas linhas. O Papa-Léguas depondo sobre o sofrimento do Coyote. O Coyote preparando uma máquina para capturar o Papa-Léguas. Até que Kevin pergunta: "Você o considera um amigo?"

Dois bips significam sim. Um bip significa não.

Bip, bip.

O Coyote está com o dedo praticamente no botão. E para.

Só isso. O filme não precisou fazê-lo discursar sobre amizade, nem desmontar a máquina, nem abandonar a perseguição para sempre. Uma fração de movimento interrompida carrega a transformação inteira. E então vem a coisa ainda mais forte. Quando o Papa-Léguas recebe espaço para acrescentar algo ao registro, o que sai não cabe em sim nem em não, e a tradução é "Você vai voltar?". Ele sentiu falta dele. Aquele que passa a vida fugindo é também aquele que percebe a ausência. O Coyote responde não com palavras, mas deixando de apertar um botão.

Não senti manipulação porque o filme não me explicou a cena. Construiu duas ações e deixou que colidissem dentro de mim. E foi justamente no momento em que mais tinha direito a um grande discurso que escolheu um bip, um dedo que para e dois personagens se olhando.

Vindo de onde venho, é difícil não reconhecer alguma coisa nessa ordem. E quero ser preciso sobre o que estou reconhecendo, porque a leitura é minha e o filme não a pediu.

O Papa-Léguas não aparece para defender um Coyote reformado. Aparece para defender Wile E. Coyote, que está naquele exato instante tentando capturá-lo. A ordem não é "ele mudou, ficou digno, recebeu amizade". A ordem é inversa: ele continua sendo quem é, alguém o chama de amigo, e só então alguma coisa nele interrompe o curso. A mudança não compra a graça. A graça possibilita a interrupção. Durante décadas, explosões não fizeram o Coyote parar. Fracassos, humilhação, a empresa, o Congresso, o advogado, nada fez. Um bip faz. Não porque derrotou a natureza dele pela força, mas porque trouxe uma informação que aquela natureza não sabia processar: aquele que eu persigo me considera amigo.

Não é alegoria. O Papa-Léguas não é Cristo, o Coyote não é o pecador, e eu destruiria a cena tentando encaixar cada personagem numa equivalência. O que reconheço é uma estrutura: o amor não espera que o outro se torne amável para começar. E ele não falsifica a verdade para conseguir amar. O Papa-Léguas não precisa declarar o Coyote inocente. O filme inteiro sabe que ele é responsável por boa parte das próprias catástrofes, e nada disso desaparece. A pergunta é se essas verdades autorizam alguém a tratá-lo como material descartável. Não autorizam. Isso me parece bem mais próximo do que minha fé chama de graça do que qualquer versão de "todo mundo é perfeito do seu jeito". Graça só é graça porque não depende de fingir que não havia nada a perdoar.

Mas aqui a leitura encontra um teto, e é honesto marcar onde.

Eu ia escrever que a dignidade do Coyote vem de alguém aparecer e dizer que ele importa. Está errado, e o erro concede o princípio do Frangolino. Se a resposta a "ele não tem amigos, então a dor dele sai barato" for "mas veja, ele tem um amigo!", eu venci o vilão nos fatos e perdi no argumento, porque bastaria ele responder: e se não tivesse? O testemunho do Papa-Léguas não cria retroativamente a injustiça. Ela já era injustiça cinco minutos antes. O Coyote já importava quando todos acreditavam que ninguém se importava. O Papa-Léguas não transforma um ninguém em alguém. Torna visível que aquele ninguém nunca foi ninguém.

O filme consegue dramatizar a primeira coisa, "você achava que estava sozinho, mas não estava", com uma força que poucos filmes têm. Não tenho certeza de que consiga fundamentar sozinho a segunda, "mesmo que absolutamente ninguém viesse, você continuaria tendo valor". São proposições diferentes, e o cinema precisa mostrar o que a filosofia pode só afirmar; a entrada do Papa-Léguas é o jeito que o cinema tem de dizer isso. Minha resposta para a segunda vem de fora do filme. Dentro da minha cosmovisão, o valor de uma pessoa não é produzido horizontalmente pela quantidade de gente que a ama. É anterior. Está ancorado em Deus, não no mercado, na produtividade, na aprovação social ou na existência de alguém que entre pela porta do Congresso. O filme me oferece uma imagem de graça que minha fé reconhece de imediato. Não me oferece uma ontologia dela. E talvez seja nessa distância, entre o que a obra consegue afirmar e o que eu levo comigo ao encontrá-la, que ela tenha me encontrado.

Close extremo do rosto do coiote, olhos baixos, atrás de um botão vermelho desfocado em primeiro plano

O que me destruiu de vez veio antes do bip, e é uma piada.

Kevin tinha mentido para o Coyote sobre a possibilidade de o Papa-Léguas aparecer, porque parecia mais fácil manipulá-lo do que ser honesto. O Coyote descobriu e foi embora. Kevin subiu ao Congresso sem saber se o cliente voltaria. O Coyote volta, e a reconciliação acontece em quatro placas levantadas uma depois da outra: Sinto muito também. Tenho muitas coisas pra te dizer, Mas... O número de placas é limitado. A última é a mesma placa que ele mostrou a Kevin na primeira consulta, quando o advogado ainda respondia que não entendia.

A gag é extraordinária. Até a capacidade de expressão do personagem sofre restrição orçamentária. E funciona emocionalmente porque eu já tinha visto no rosto dele, no filme inteiro, tudo o que as placas não comportam. A piada não substitui a emoção. Ela nasce da insuficiência do dispositivo para expressá-la. A coexistência de que Green falou, o inteligente e o estúpido no mesmo instante, está inteira aí, e é a razão de eu ter reagido com o corpo antes de conseguir formular por quê.

Quando consegui, foi isto: há muito mais acontecendo aqui dentro do que a quantidade de placas permite colocar para fora.

Não porque me faltem palavras. Palavras raramente são meu problema, e este texto é a prova. O problema é que a experiência vem não linear e a linguagem precisa sair linear. Uma associação aciona outra, que aciona uma memória, que muda a leitura da cena anterior, que encontra uma coisa da minha vida, que abre uma questão teológica, que volta para a gag e muda o que a gag significa. E em algum momento eu preciso escolher. Placa um. Placa dois. Enquanto o universo que produziu as placas continua inteiro atrás delas, maior do que qualquer sequência.

Já escrevi sobre isso (abre em nova aba) por outro lado, o de tudo entrar sem pedir licença e sem fila. O Coyote me deu a imagem complementar, que eu não tinha: depois que entrou tudo, como se coloca isso para fora com um número limitado de placas? Foi por isso que não consegui simplesmente terminar o filme. Pausei, voltei, tirei prints, fui atrás dos curtas antigos, registrei falas, comecei a escrever enquanto ainda estava assistindo porque a interpretação mudava durante a experiência e eu não queria reconstruí-la falsamente depois. Minha prima viu o mesmo filme, na mesma noite, e dormiu. Eu tive catarse atrás de catarse. Não digo que ela assistiu errado. O contraste é o ponto. Ela pôde dormir. Eu terminei horas depois falando sobre ontologia de bala de desenho animado.

Existe uma solidão muito particular nisso, e ela não é a de não ter com quem falar. Tenho, e são pessoas que perguntam e querem a resposta de verdade. A solidão é a de perceber algo com uma intensidade enorme e precisar reduzir a resolução para conseguir compartilhar. Tirar uma camada, depois outra, deixar de explicar a associação que levou à associação seguinte, escolher uma linha e abandonar cinco. Consigo. É cansativo. E de vez em quando eu olho para o que sobrou na mesa e penso, será que eu sou completamente maluco.

O filme tem uma resposta para isso, e ela não é placas infinitas.

Depois das quatro placas, Kevin diz: "Você não precisa mais de placas." O Coyote não recebe um estoque maior. A limitação continua exatamente a mesma. O que mudou foi a relação. Depois de um filme inteiro em que ele precisou apresentar documentos, precedentes, ferimentos e provas de que seu sofrimento merecia reconhecimento, alguém que o conhece deixa de exigir documentação. Eu tinha escrito, no ensaio sobre a ferida como oferta, sobre querer encontrar alguém que processasse o mundo nas mesmas camadas que eu. As placas me fizeram desconfiar da formulação. Talvez o que eu procure não seja alguém que funcione igual. Talvez seja alguém diante de quem eu possa mostrar três, quatro, dez placas e não ficar aterrorizado com tudo o que ficou de fora. Alguém que saiba que quatro placas não são o tamanho inteiro da pessoa que está na frente dele.

Não sei se esse encontro existe do jeito que imagino. Não vou resolver isso aqui.

Coiote sentado no público de uma audiência, segurando uma placa branca onde se lê "It's a limited number of signs"
Placa localizada para esta publicação. No filme, lê-se "It's a limited number of signs".

Volto à espera, que é onde o filme encostou.

Há uma personagem lateral que eu não esperava levar comigo. Paige, a estagiária, sobrinha de Kevin. No começo ele arremessa uma pasta contra uma janela fechada, vê os papéis caírem no chão e diz que aquilo é libertador. Ela quer pegar de volta, quer organizar em ordem alfabética, e ele manda ela parar. A piada é sobre alguém que não consegue não fazer a próxima coisa. Eu ri porque é o que eu faço com tudo o que o mundo derruba no chão: pegar de volta e colocar em ordem alfabética, não importa a energia que custe. Também é dela a frase "o céu é o limite", que Kevin rejeita na hora: o céu não é o limite, e o limite está bem aqui. No fim é ele quem diz, depois de ter tentado de verdade e perdido de verdade, e ela repete de volta. Kevin precisou conhecer o chão para dizer que o céu é o limite sem ingenuidade.

Então o filme me deixa com três disposições diante do futuro, e nenhuma delas é a moral. Kevin: não tente, porque você pode fracassar. Coyote: tente de novo mesmo depois de fracassar. Paige: há alguma coisa pequena que pode ser feita agora; faça. A terceira é a que serve para onde estou. Talvez eu não precise decidir hoje se São Paulo deu certo, nem transformar cada candidatura, cada projeto ou cada semana num plebiscito sobre o sentido da minha vida inteira. Existe a próxima pasta. A próxima candidatura. A próxima página. A próxima pessoa. Esperança, no cotidiano, raramente se parece com a convicção épica de que tudo vai dar certo. Às vezes é só "posso pegar a pasta?".

Duas críticas brasileiras me obrigaram a ir mais fundo do que eu queria nisso. O Vício lê o filme como a tragédia de conseguir o que se quer (abre em nova aba): a resolução do caso pouco importa, a natureza do Coyote é correr atrás e a do Papa-Léguas é fugir, e no dia em que a perseguição acabar haverá só vazio. O Devaneios Cinéfilos puxa Camus (abre em nova aba), é preciso imaginar Sísifo feliz, e chama os dois de únicos habitantes do deserto. Achei que fossem o oposto do que eu vi. Não são. Elas corrigem uma simplificação que eu estava prestes a fazer. O filme não diz que a perseguição é uma doença da qual o Coyote precisa ser curado. Se dissesse, o final seria uma recaída. O final trata a perseguição como parte constitutiva dos dois, e a pergunta "Você vai voltar?" reorganiza tudo o que veio antes: aquele que não quer ser alcançado sente falta de quem vem atrás dele. O vínculo não elimina o conflito. Existe através dele.

Isso muda o que o botão significa. O Coyote não aprende a parar de perseguir o Papa-Léguas. Descobre que é capaz de interromper a perseguição. Por um instante, a natureza dele deixa de funcionar como destino automático, e depois ele volta a persegui-lo, e é por voltar que sabemos que a interrupção foi escolha e não reescrita do personagem. E muda também a minha pergunta sobre espera. Eu vinha perguntando o que sustenta alguém enquanto o processo dura e o produto não vem. O filme acrescenta uma pergunta mais incômoda: e se existir alguma coisa que o processo me dá justamente porque o produto ainda não veio? Não quero romantizar a ausência de resposta. Quero trabalho, quero saber para onde estou indo, quero que certas coisas deem certo. Mas "ainda não consegui" e "nada aconteceu" não são a mesma frase. Fiz amigos aqui. Entrei em relações novas. Estou escrevendo, construindo, tentando. Este filme só encontrou certas perguntas em mim porque eu o vi neste intervalo. Isso não transforma espera em resultado. Impede que eu trate o intervalo como tempo morto.

O horror do Projeto Sísifo, visto por esse ângulo, nunca esteve na repetição em si. Está em uma instituição externa se apropriar da repetição, monetizá-la e decidir que o sofrimento é aceitável porque o sujeito consegue suportá-lo. Uma coisa é o Coyote escolher a montanha dele. Outra é a ACME transformar a montanha dele em laboratório. Capacidade de suportar sofrimento não concede a terceiros direito sobre ele. E propósito pessoal não transforma exploração em benevolência.

Cientista de desenho animado com prancheta e gravata-borboleta em primeiro plano num galpão industrial, com bigorna, piano, ímã e foguete suspensos no teto e cientistas de jaleco nas passarelas ao fundo

Nem tudo nele me convence, e prefiro dizer onde.

A relação entre o Coyote e o Papa-Léguas é enorme na cena do Congresso e pequena no resto do filme. O roteiro tem setenta e sete anos de iconografia para sustentar aquele bip, mas não tem, dentro do próprio filme, uma quantidade equivalente de cenas em que o Papa-Léguas demonstre que sente falta, que pensa nele como amigo, que vive a perseguição como algo recíproco. Ele aposta que nós conhecemos a dupla e que vamos reinterpretar a perseguição inteira em retrospecto. Comigo funcionou violentamente. Mas há diferença entre "percebi algo que o filme vinha construindo" e "o filme apresentou uma ideia tão bonita, no momento exato, que eu imediatamente quis acreditar nela". "Você vai voltar?" fica perigosamente perto da segunda. Um filme que confia tanto no espectador pode deixar uma lacuna para ele preencher; a pergunta é quando confiança vira atalho. Quero rever procurando o que eu completei com a minha vulnerabilidade.

E o epílogo devolve recompensas rápido demais. Kevin perde a audiência, o que é a melhor decisão do roteiro, e nos minutos seguintes centenas de cartoons aparecem no escritório querendo contratá-lo, aparecem as fitas do Projeto Sísifo, a opinião pública vira, a carreira decola. O filme diz que a tentativa tem valor mesmo quando você fracassa e depois trabalha bastante para garantir que aquele fracasso rendeu um monte de vitórias laterais. Não destrói a tese. Amortece a radicalidade dela. A versão impiedosa terminaria com Kevin tendo tentado, perdido e sem nenhuma evidência imediata de que valeu a pena. A tentativa dele importaria se nenhum cartoon aparecesse? Eu digo que sim. Não tenho certeza de que o filme confie nesse sim. O Coyote importaria se o Papa-Léguas não entrasse?

Nada disso me fez sentir enganado. Talvez seja porque o filme me deu tanto que agora consigo interrogá-lo sem precisar protegê-lo.

E há uma coisa que só descobri depois de ter visto.

Este filme quase não existiu. Foi rodado em 2022, ficou pronto, e em novembro de 2023 a Warner Bros. Discovery anunciou que não o lançaria: preferia abater cerca de trinta milhões de dólares em impostos a distribuí-lo, apesar de sessões-teste elogiadas. A equipe soube depois. Houve reação, e o estúdio recuou a ponto de permitir que o filme fosse oferecido a outros distribuidores. Recusou as ofertas que vieram. Considerou deletá-lo. Ficou mais de um ano no limbo até que uma distribuidora pequena chamada Ketchup Entertainment comprou todos os direitos. Chegou aos cinemas em agosto de 2026, mais de quatro anos depois de filmado.

Escrevo isso tarde no texto de propósito. Contado cedo, sequestra o filme. As ideias que descrevi até aqui já estavam na obra antes de qualquer executivo decidir alguma coisa; a trajetória industrial só passou a rimar com elas depois. E a rima é quase indecente. Uma obra sobre uma corporação que transforma personagens em ativos úteis, e os descarta quando deixam de ser, foi concluída e depois considerada mais útil sem existir do que existindo. Antes de o filme começar, o logo da Warner aparece com um asterisco quase ilegível no rodapé; a câmera aproxima até dar para ler que o estúdio é "uma empresa totalmente controlada pela Corporação ACME". A piada provavelmente foi escrita antes de a Warner fazer com o filme algo que parece uma piada escrita pelo filme.

O que quero evitar é a leitura que a Slate fechou assim (abre em nova aba): por todo o esforço, o Coyote finalmente parece ter pego um pássaro. Exatamente a frase que arruinaria o filme se o roteiro a tivesse feito. O filme não termina com captura. Termina com "talvez algum dia, talvez amanhã". Transformar o lançamento na captura metafórica faz retroativamente o que a obra recusou fazer, e diz, por baixo, que a perseverança só ganhou sentido porque no fim houve vitória. Prefiro a outra formulação, que é a mesma do Papa-Léguas: o filme já tinha valor enquanto estava numa prateleira. O lançamento não criou esse valor. Tornou-o visível. O Coyote já importava antes de o Papa-Léguas entrar pela porta. O filme já importava antes de alguém colocá-lo numa tela.

Papa-Léguas segurando uma placa onde se lê "You're back", de frente para o coiote, numa estrada de deserto com um paredão de rocha ao fundo
Placa localizada para esta publicação. No filme, lê-se "You're back".

No fim, o narrador diz que o Coyote continua perseguindo o Papa-Léguas. Ainda não o pegou. Talvez algum dia. Talvez amanhã. E então explode alguma coisa, e sabemos que provavelmente não será amanhã. Mas o narrador acrescenta uma informação que não existia no começo: às vezes, quando fica solitário, ele vai até Albuquerque visitar os amigos.

Essa é a resolução mais delicada do filme. Ele não resolveu a perseguição. Resolveu, em parte, a solidão. A pedra continua rolando montanha abaixo e Sísifo continua voltando para empurrá-la. Só que agora, de vez em quando, Sísifo tem amigos em Albuquerque. Meus amigos daqui não transformam São Paulo numa resposta, nem incerteza em emprego, nem projeto em sucesso, e não abolem a solidão de funcionar como funciono. O filme não resolve a espera do Coyote. Altera as condições em que ele espera. E ainda assim ninguém atravessa a incerteza por ele. Essa parte é dele. A caverna é uma espera que não se transfere, e não uma ausência de amor.

Eu vivo antes de Albuquerque. Não tenho narrador me dizendo "talvez amanhã". Tenho amanhã, e preciso decidir o que fazer nele. Depois todo mundo sabe: quando a empresa funciona dizem que o fundador perseverou, quando quebra dizem que ele não soube parar; quem muda de cidade e a vida melhora foi corajoso, quem volta meses depois errou. O resultado reescreve o nome que damos à tentativa. Eu não vivo em retrospecto. Continuo sem saber se a próxima armadilha é coragem ou é só mais uma armadilha.

O filme me ensinou que fracassar não é motivo suficiente para parar. Ainda não sei quando passa a ser.