João
Não é manual de regras: é a apresentação de uma pessoa. Quem escreveu, quando, e como os 21 capítulos se organizam.
A presença de Deus revelada em Jesus
- Quando se passa
- 28-30 d.C.Início ancorado no ano 15 de Tibério (Lucas 3:1) e na prefeitura de Pilatos (26 a 36 d.C.). A crucificação tem duas datas rivais: 30 d.C., maioria (levantamento de Blinzler; Meier; Wright), e 33 d.C., minoria substancial (Hoehner; Humphreys e Waddington). São alternativas, não um intervalo: o calendário exclui 31 e 32.
- Quem aparece
- Jesus, João Batista, Discípulos.
- Onde
- Galileia, Samaria, Jerusalém.
Por onde começar
"Estes, porém, foram registrados a fim de que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome." (João 20:31)
O que é este livro
O Evangelho de João não é um manual de regras. É a apresentação de uma pessoa. O próprio livro declara seu propósito perto do fim: que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e que nessa fé haja vida (20:31).
Depois do prólogo (1:1-18), a primeira parte gira em torno dos sinais, milagres que valem menos pelo prodígio e mais pelo que revelam: quem Jesus é. O capítulo 12 fecha esse movimento e vira a chave ("chegou a hora"); dali em diante o livro trata da ligação de Jesus com os seus, da promessa do Espírito, do julgamento, da morte e da ressurreição.
Autoria e datação
- Tradição: João, o apóstolo, um dos mais próximos de Jesus, o "discípulo amado". Relato de testemunha ocular.
- Academia (maioria hoje): duvida da autoria apostólica direta. Um modelo influente: o evangelho nasce do testemunho do discípulo amado, mas foi composto e finalizado por uma comunidade ou escola em torno dele. Essa reconstrução da "comunidade joanina" vem sendo revista e já não é quadro pacífico. O próprio texto dá a pista de mais de uma mão: em João 21 a voz troca de "ele" para "nós" (v. 24), e o versículo seguinte volta ao singular ("suponho", v. 25). A maioria lê o plural como um círculo atestando a testemunha; uma leitura minoritária o toma como plural do próprio autor, um "nós" de testemunho solene (Bauckham).
- Atribuição externa: a identificação explícita e detalhada mais antiga que chegou até nós, ligando o quarto evangelho a "João", aparece em Irineu, em Contra as Heresias, por volta de 175 a 185 d.C. (onde ele também testemunha a existência de um cânon de quatro evangelhos).
- Datação: o consenso crítico atual é fim do século I, com a maioria das propostas entre 80 e 100 d.C. Uma minoria defende uma data anterior a 70 d.C.; o defensor mais citado, J.A.T. Robinson (Redating the New Testament, 1976), veio da própria crítica liberal.
Nada disso abala o evangelho. Muda só a confiança com que se afirma quem segurou a caneta. O coração permanece: um testemunho enraizado em quem viu, escrito pra mostrar quem Jesus é. O próprio texto reivindica isso em 21:24: "este é o discípulo que dá testemunho destas coisas... e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro."
Como o livro se organiza
| Bloco | Capítulos | O que acontece |
|---|---|---|
| Prólogo | 1:1-18 | A Palavra eterna se faz carne |
| O Livro dos Sinais | 1:19 a 11 | Sete sinais que mostram quem Jesus é |
| A virada | 12 | Fecho do Livro dos Sinais: Jesus é ungido e entra em Jerusalém; "chegou a hora" |
| O Livro da Glória | 13 a 20 | A última noite, a promessa do Espírito, a cruz e a ressurreição |
| Epílogo | 21 | O café da manhã na praia e a restauração de Pedro |