Perto sem saber

"Aprenda sobre a vontade da natureza. Estude-a, preste atenção nela e, então, torne-a sua."
Epicteto, A Arte de Viver
Eu tinha o roteiro pronto. Sabia o que ia acontecer na minha vida, em que ordem e com qual resultado, e era arrogante o bastante para confundir isso com maturidade. O roteiro falhou. Falhou de todas as maneiras possíveis, e algumas delas foram maravilhosas, porque foi de dentro de uma dessas falhas que nasceu a minha fé.
Mas isso é o fim da história. O começo é uma manhã de 15 de julho de 2019, um voo às 6h35 e um aeroporto do outro lado do mundo.
Preciso dizer uma coisa antes de qualquer outra, porque é verdade e porque o resto deste texto depende de eu não fingir o contrário: era encantamento de turista. Era mesmo. Eu tinha trinta e dois anos, estava na minha segunda viagem internacional em dois meses, dormia bem, andava vinte e cinco quilômetros por dia sem destino e sem GPS, e achava o mundo luminoso. Qualquer pessoa acharia. Não é revelação, é férias.
Escrevi sobre essa viagem em 2022 (abre em nova aba) e não disse isso uma vez sequer. O texto de lá é bonito e é honesto no que conta, mas ele explica o encantamento com estoicismo, cita Epicteto, fala em adequar a conduta à natureza. Ele estava tentando dar um nome a alguma coisa. Só não tinha o nome ainda.
O portal é a primeira coisa que se atravessa em Auckland. Está lá na sala de desembarque, entalhado, com as boas-vindas em Māori e uma prece para que desfrute, elucidação, amizade e uma jornada segura sejam companheiros constantes durante a estada. Um aeroporto que reza pelo visitante. Repare no tamanho do gesto: antes da fila da imigração, antes de qualquer carimbo, alguém decidiu que a primeira coisa dita a um estrangeiro seria um desejo de bem.
Foi assim o país inteiro. As praças tinham placas contando a própria história em detalhes. As crianças aprendiam a língua e a cultura dos Māori na escola, com nativos. Eu ficava lendo aquelas placas e não entendia direito por que estava emocionado com uma placa.
Nos primeiros dias fiquei num hotel em Parnell, e quem me recebeu na recepção foi um gato. Eu era fluente em inglês desde sempre e nunca tinha usado o idioma fora do Brasil. Foi ali, com um gato de testemunha, que eu falei inglês com alguém que só falava inglês. É uma bobagem enorme dizer isso em voz alta e foi uma das coisas mais felizes daquela semana.
O que me pegou não foi a paisagem. Foi a educação das pessoas. Era possível sair à noite e chegar em casa a pé. Fiz amizade com um morador de rua e a gente comeu hambúrguer junto. Tomei cerveja com uma colega brasileira e voltamos andando para a hospedagem, de madrugada, conversando. Eu vinha de um lugar onde nada daquilo era possível, e não é crítica nenhuma. Eu é que não sabia que existia outro jeito.
A diretora da organização que recebia os alunos por lá, a que cuidava de moradia, de famílias anfitriãs e de matrícula na escola, era cristã, e eu a amava sem fazer a menor ideia do que isso significava. Ela me disse uma vez, e não garanto as palavras exatas, que dava para considerar uma ideia profundamente equivocada sem considerar menor a pessoa que a defendia.
Foi ela que me levou a restaurantes e a jantares com diretores de escola. Num deles, 24 de julho, em Mount Maunganui, o assunto era Ihumātao: um terreno sagrado para os Māori, em Māngere, prometido a um conjunto habitacional e ocupado havia meses por quem queria impedir a obra. Ficava a quase duzentos quilômetros dali e mesmo assim era o assunto. Na véspera a polícia tinha chegado para tirar os ocupantes de lá, e não tirou. Eu assistia a duas pessoas discordarem sobre aquilo na mesma mesa, com o impasse ainda de pé, e depois uma passar o pão para a outra.
Uma manhã, num jardim em Parnell, vi um casal de velhinhos. Ela pintando um quadro, ele escrevendo. Eu não soube o que fazer com aquilo. Tirei a foto e fui embora com uma sensação que levei sete anos para conseguir dizer.
🇳🇿 Define Happy, Auckland · 2019Ler a história (abre em nova aba)
Eles não sabem que eu existo. Estavam ali numa manhã de inverno, num jardim de rosas com as roseiras podadas e nuas, cada um na sua cadeira, fazendo uma coisa devagar. Era isso. Não havia nada de extraordinário acontecendo, e mesmo assim eu parei.
Hoje eu sei o que era. Eu tinha chegado perto de Deus sem conhecê-Lo.
É a melhor descrição que consigo dar. Não foi uma experiência religiosa e eu não vou fabricar uma retroativamente. Não teve voz, não teve sinal, não teve nada que eu pudesse contar como testemunho. Teve um mundo onde as pessoas eram gentis por hábito e não por esforço, onde a natureza era tratada como parente e não como cenário, e onde dois velhos podiam passar uma manhã inteira num jardim sem que aquilo fosse desperdício de tempo. Eu estava perto de alguma coisa. Não sabia o nome dela.
Só que encantamento de turista tem prazo de validade. Esse não teve.
Eu voltei diferente, e a diferença custou caro. Na época eu gerenciava uma franquia de intercâmbio em João Pessoa, e eu era um gerente ruim de um jeito específico: deixava a pressão dos vendedores me contaminar e descontava nas pessoas da matriz. O financeiro, o pessoal de matrícula, os departamentos. Gente que só queria ajudar e que eu tratava mal porque estava com raiva de uma meta.
Depois da Nova Zelândia eu não consegui mais. Não teve decisão moral nisso: eu tinha visto outro jeito funcionar e não dava mais para desver. Comecei a tratar bem quem eu tratava mal. Os vendedores não entenderam. Queriam bater meta, queriam que eu apertasse, e eu não apertava mais.
Fiquei extremamente amigo de todo mundo da matriz em São Paulo. E foi exatamente aí, no lugar onde eu tinha parado de pressionar, que as portas começaram a abrir. Workshops, eventos da rede, viagem a Recife porque a supervisora regional era a franqueada de lá. E, mais do que isso, conversa com o pessoal do financeiro e da matrícula fora do expediente, descobrindo o que a gente tinha em comum.
A minha cabeça abriu. A vida que eu achava que conhecia e sobre a qual eu achava que já sabia tudo tinha acabado de me entregar um livro de milhares de páginas que eu não tinha lido.
🇳🇿 Define Paradise, Mount Maunganui · 2019Ler a história (abre em nova aba)
Foi o estoicismo que me levou até ali. Não tenho vergonha nenhuma de dizer isso, e não é concessão: foi a forma que Deus usou para me atrair. Epicteto me ensinou a olhar para a natureza e perguntar qual era a vontade dela. Era a pergunta certa feita com o nome errado.
E teve a minha mãe, que naquela época estava leve. Ela não repreendeu, não criticou, não apontou para Cristo de forma incisiva. Ela só ia mostrando os paralelos, um de cada vez, e deixando a curiosidade fazer o trabalho.
O livro da epígrafe abre dizendo que há coisas que estão sob nosso controle e coisas que não estão. Ela pôs Romanos 12:18 ao lado: se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens. Epicteto manda discernir o que está no seu domínio. Paulo manda assumir o que depende de você. Na época eu li como a mesma frase dita duas vezes.
Hoje, mais exigente e mais atento, sei que não é. Em Epicteto a disciplina serve à vida conforme a razão e a natureza. Em Paulo ela nasce da misericórdia de Deus e do amor ao próximo. A semelhança prática é real, o fundamento é outro. Mas quem não conhece o fundamento só enxerga a prática, e a prática bastou para me manter olhando. E aí eu caí por Cristo de vez.
Quatro anos depois da viagem eu estava mergulhado de cabeça naquele livro que até então eu não tinha lido. As Escrituras. Foi ali que eu comecei a admitir que talvez, aí sim, estivesse descobrindo alguma coisa sobre a minha própria vida.
Prometi três coisas no fim daquele texto de 2022. Um álbum com as melhores fotos, um texto sobre Hobbiton e um draft contando a jornada inteira, que estaria em construção. As fotos eu separei e elas estão aqui até hoje. Hobbiton eu não visitei, porque não consegui vaga, então morreu na porta e no texto. O draft nunca existiu.
Não me incomoda mais. Aquelas promessas eram do mesmo material do encantamento: a vontade sincera de segurar uma coisa grande com as duas mãos e a certeza ingênua de que dava para segurar. O que sobrou não foi o álbum. Foi o jeito de tratar as pessoas.
Eu tinha o roteiro pronto e ele falhou inteiro. Levei sete anos para entender que o roteiro não falhou apesar daquela viagem. Ele começou a falhar ali, num jardim de inverno, quando eu vi dois velhinhos em duas cadeiras e senti falta de uma coisa que eu ainda não sabia nomear.
Hoje eu sei que a cadeira que faltava não era a minha.